| CRÍTICA | A Rapariga da Mala

Ainda Linda de Suza não sonhava dar o salto e já Claudia Cardinale era abandonada, com uma mala de cartão na mão, numa estação de serviço por um namorado que se fartara dela. Cardinale é, pela enésima vez, o arquétipo da bomba latina que seria perpetuado depois pela Sophia Loren até à exaustão: sensualidade e beleza a rodos e um feitio explosivo – o sangue quente do pessoal do sul, há estereótipo mais irritante? -, que contrasta de forma algo paradoxal com a fragilidade feminina.

Sozinha, sem um tostão no bolso, a cantora Claudia Cardinale é uma profissional precária e, como tal, está desesperada com o abandono do recente namorado, que lhe prometera concertos aquilo e acolá, provavelmente apenas com o pretexto de a levar de férias durante uns dias. Por isso, decide ir à sua procura. Mas em vez de Corrado Pani encontra o seu mano mais novo, um jovem Jacques Perrin, de apenas 16 anos.

O petiz desfalece de amor e a paixão vão leva-lo a ajudar a formosa e insegura Cardinale, convencendo-se de que está apenas a seguir o dever moral de emendar o erro que o seu irmão criou. Menos claros são os propósitos de Claudia Cardinale: estará ela a aproveitar-se do desejo ardente de Perrin, para lhe ir sacando uns trocos? Ou é tudo involuntário e existe mesmo uma amizade séria entre eles? Se a resposta correcta é esta última, então por que não se furta à companhia nocturna de homens que acaba de conhecer, mesmo sabendo que isso vai magoar o jovem? No final, o padre há de a confrontar com tudo isto. E, apesar da resposta ficar sempre em aberto, o plano final é muito mais do que meramente sugestivo.

A grande novidade de A Rapariga da Mala é a forma como muda o paradigma das relações amorosas na arte. A paixão do adulto com a jovem menor tem sido explorado em enésimas variações desde a Lolita, mas esta é provavelmente uma das poucas vezes em que a mulher é a mais velha. Essa mudança de perspectiva tem ainda redobrada importância tendo em conta que o ano é 1961 e estamos em Itália, país conservador onde a igreja católica tem um peso particularmente diferente.

O realizador Valerio Zurlini mantém um olhar neutro, que nem sequer procura vampirizar a beleza de Claudia Cardinale, apesar dela roubar todas as cenas em que entra. Além disso, tem um uso muito curioso da banda-sonora, em momentos em que os temas dialogam com o próprio filme, seja a Aida, de Verdi (porque a personagem de Cardinale chama-se… Aida), ou o Imprazzivo per te, o tema de Adriano Celentano sobre um rapaz atraiçoado pela mulher que o ama, que é a música que toca diegeticamente no gira-discos na cena em que Claudia Cardinale não para de dançar com o homem que acaba de conhecer ao jantar, sob o olhar julgador de Jacques Perrin. Já dizia o outro que o diabo está nos detalhes… Aqui, o diabo está no McBacon.

Título: La Ragazza Con la Valigia
Realizador: Valerio Zurlini
Ano: 1961

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