| CRÍTICAS | Aracnofobia

No que diz respeito a antropomorfia no cinema, existem dois momentos superiores e um que o poderia ter sido. Comecemos por este último: em Perigo No Oceano, um grupo de cientistas transforma um trio de tubarões em animais inteligentes; o realizador Renny Harlin perde uma excelente oportunidade de os colocar a jogarem às cartas. Em Orca – A Fúria Dos Mares acontece um dos momentos mais felizes da antropomorfia de animais no cinema de imagem real: ao ver a orca-esposa a ser pescada e a orca-filho a ser morto, a orca-marido fica com os olhos raiados de sangue, olha para o céu e grita desalmadamente, enquanto a câmara rodopia em contra-picada, tal e qual um filme do Van Damme depois de lhe matarem alguém da família. 

Mas o melhor momento de todos é o de Aracnofobia, filme sobre uma espécie tropical de aranhas assassinas gigantes que se muda para os Estados Unidos e, ao copular com um aracnídeo vulgar, têm uma praga de bebés mortíferos. Tal como em Orca – A Fúria Dos Mares, a aranha de Aracnofobia também tem espírito de vingança depois de ver uma prima sua ser esmagada por um fotógrafo-explorador, mas o supra-sumo da antropomorfia está quando a aranha exótica e a caseira se conhecem: música romântica, a lua cheia lá fora e os dois bichos a aproximarem-se romanticamente. Ao pé disto, dois cães a beijarem-se depois de comerem o mesmo fio de esparguete não tem piadinha nenhuma. 

Aracnofobia é isto, um filme de monstros sobre uma praga imprevista de aranhas assassinas (se bem que aqui a fobia é bem maior, uma vez que os “mosntros” são bem reais, fazendo deste o equivalente de Os Pássaros, mas com aranhas) numa smalltown americana, para onde o (muito convenientemente) aracnofóbico Jeff Daniel se acaba de mudar mais a sua família. Apesar do suspense do filme de género, aproximando-se ainda dos limites dos horror movies xunga que o filme homenageia (e é aqui que surgem as comparações com o Tubarão, ou não fosse Spielberg produtor executivo), o realizador Frank Marshall não tem problemas em tornar o filme descontraído e cheio de humor. 

Como manda a boa tradição dos filmes de segunda categoria, o argumento de Aracnofobia é o mais straight-ahead e termina ao fim de meia hora: exploradores descobrem uma aranha nova num cenário tropical qualquer, esta arranja maneira de se infiltrar na bagagem até aos Estados Unidos e reproduz-se num celeiro semi-abandonado. A partir daqui não se passa mais nada, apenas o bodycount a aumentar, o pânico a espalhar-se e Jeff Daniels a encetar esforços para estancar aquela matança. No fundo, foi uma opção inteligente: aranhas são bichos suficientemente incomodativos para aguentarem um filme inteiro por si só, enchendo-nos de comichão e de tiques nervosos até ao final. 

Contudo, Aracnofobia não sairia vencedor desta batalha com o bom gosto se não fosse John Goodman na última meia-hora, na pele de um exterminador destrambelhado e trapalhão, que, qual equivalente cómico de Roddy Piper em Eles Vivem, vem para chutar os rabos das aranhas e mascar pastilha elástica. E a pastilha elástica já acabou. Aracnofobia não é propriamente genial nem acima da média, mas vê-se com uma descontracção e um prazer parvo acima da média, que desliza pelo McChicken com uma facilidade tremenda. 

Título: Aracnophobia
Realizador: Frank Marshall
Ano: 1990

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