| CRÍTICAS | A Lenda do Cavaleiro Verde

O folclore em redor do Rei Artur já nos deu muita coisa boa na cultura popular, sejam épicos de capa e espada, sejam desenhos-animados da Disney. No entanto, A Lenda do Cavaleiro Verde é a primeira vez em que esse material passa pelo filtro da A24, essa instituição do cinema de terror mais alternativo que é já um caso sério. Esqueçam lá os mitos fundadores e essas tretas de valores superiores e sejam bem-vindos à lenda de Sir Gawain limitada aos sinais e símbolos de género do terror.

Sir Gawain (Dev Patel), um dos cavaleiros da Távola Redonda e um dos mais importantes de todo o ciclo Arturiano, é sobrinho do próprio Rei Artur, filho da sua irmã Morgana, e, por isso, tem uma ligação ao paranormal por intermédio da bruxaria da mãe. Não é que isso interesse muito para A Lenda do Cavaleiro Verde, mas ajuda a contextualizar as coisas. Sir Gawain, ainda jovem, estava então a festejar o Ano Novo na corte do Rei Artur, quando uma misteriosa criatura tipo árvore irrompe pelo castelo adentro e lança um desafio à audiência: quem é capaz de lhe desferir um golpe, sob a condição de que este lhe retribua o mesmo golpe em exactamente 365 dias?

Gawain, um jovem com ganas para se tornar num cavaleiro, chega-se à frente e acha-se mais espero que a estranha criatura. Lança-lhe um golpe certeiro de machado e decepa-o, mas este, para surpresa de todos, levanta-se, pega na cabeça sorridente e abandona o local. Em um ano ambos devem-se encontrar na Capela Verde, desta vez para o golpe da estranha criatura. 365 dias passam rápido e Gawain decide aceitar o desafio, porque não se deve brincar com coisas paranormais, e vai em busca da tal Capela Verde. A Lenda do Cavaleiro Verde é então a história dessa demanda.

Mais do que uma aventura, A Lenda do Cavaleiro Negro é uma epopeia tipo os trabalhos de Hércules, em que mais do que a narrativa linear, o que interessa são os episódios que aglomera e em que cada um tem o seu próprio significado, enquanto alegoria ou metáfora isolada. Sir Gawain vai cruzar os seus caminhos com ladrões e salteadores, gigantes, raposas falantes, ladys sedutoras e lordes, em episódios que colocam à prova a sua resistência, a sua bravura ou a sua inteligência.

Tudo isto parece apenas mais uma versão de um Excalibur, mas não podia ser mais diferente. A Lenda do Cavaleiro Verde é um filme atmosférico, que cruza o ambiente medieval com tiques modernistas (drones na banda-sonora co-habitam com intratítulos trabalhados como manuscritos iluministas), uma linguagem antiga com uma fotografia e mise-en-scene de anúncio televisivo e uma iconografia cristã (e ortodoxa) com os símbolos do cinema de terror. O que resulta é uma experiência quase imersiva, daquelas que tem efeitos extremos: ou se ama ou se odeia. E mesmo que se odeie, uma coisa é certa: dificilmente se esquecerá. A Lenda do Cavaleiro Verde é uma espécie de A Bruxa – A Lenda de New England, versão Arturiana, mas com cavaleiros em vez de peregrinos. E, tal como esse, é também um belo de um McRoyal Deluxe.

Título: The Green Knight
Realizador: David Lowery
Ano: 2021

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