| CRÍTICAS | Os Mestres do Kung-Fu

Todos nós, durante a nossa adolescência, tirámos um curso intensivo de cinema de artes marciais, graças a figuras como Bruce Lee, Van Damme e até Chuck Norris. Por isso, todos sabemos à partida que quando um homem inocente e bondoso é torturado de qualquer forma por um tirano qualquer, de certeza que este vai buscar vingança, mais tarde ou mais cedo, e o mais provável é ter a ajuda de um qualquer mestre de artes marciais refundido.

Os Mestres do Kung Fu é o habitual flick de artes marciais: um homem inocente, Lee Ho (Frankie Sum) é torturado por motivos desconhecidos, a mando de um tirano, algo tão habitual na China feudal, e promete vingança. Para além disso, o homem que executou a ordem, Tau (Jack Conn), também acaba torturado pelo próprio tirano, por qualquer motivo igualmente desconhecido e jura também vingança. Ambos vão unir forças e vão ser submetidos a um intenso treino por um agricultor e mestre em artes marciais reformado, para no final derrotarem o temível Lin Chung Kung (Chen Mu Chuan). Claro que depois para o meio existem poutras histórias paralelas, que incluem agentes secretos do governo e relíquias de jade com poderes místicos, que não são mais do que bibelots da loja dos chineses, mas que não interessam nem ao menino Jesus.

Até aqui tudo normal. Aliás, Os Mestres do Kung Fu podia muito bem ser mais um kung fu flick se não fosse uma particularidade – que os seus actores fossem todos inválidos. Lee Ho viu os seus braços serem-lhe cortados, mas na verdade o que ele tem são dois tocos, um com um género de dois dedos, devido a uma doença de nascença; e Tau, que viu as suas pernas queimadas por um ácido concentrado, não é mais do que um oriental paralítico, cujas pernas não cresceram em relação ao corpo. Para além disto, talvez para não parecer descriminação gratuita, também o tirano Lin Chun Kung tem uma corcunda de ferro(!).

Os Mestres do Kung Fu é assim um habitual filme de série B de artes marciais, mas que se insere na categoria do grotesco, combinando artes marciais com o interesse voyeur de filmes como Parada de Monstros. Mas vai mais além que o filme de Tod Browning – quando Lee Ho é transformado em deficiente, o filme enverda pelo campo da comédia, ao estilo de “gozar com a desgraça dos outros”. E, voluntária ou involuntariamente (não dá bem para perceber), todo o treino dos dois inválidos é algo hilariante, de tão ridículo que se torna.

Mas não se pense que Os Mestres do Kung Fu é apenas sensacionalismo gratuito: os dois actores, apesar das suas sofríveis qualidades representativas (cujos diálogos ridículos também não ajudam), são lutadores exímios, que embarcam em coreografias fantásticas, que até incluem uma demonstração com uma cana de bambu por parte do lutador sem braços de deixar qualquer um de boca aberta.

Os Mestres do Kung Fu é um Pão Com Manteiga em sofisticação, mas é um McBacon em divertimento e coreografias de artes marciais. Além disso, dá-nos ainda uma lição em certos aspectos: por exemplo, quando nos cortam um braço, para além de indolor é algo que não faz muito sangue; qualquer chinês sabe artes marciais, seja ele um shaolin ou um vendedor de loiças; e claro, todos as lutas de artes marciais emitem sons como os de um tiroteio. Um must see!

Título: Crippled Masters
Realizador: Chi Lo
Ano: 1979

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