| CRÍTICAS | Venom – A Última Dança

Há uma citação que é partilhada aos milhões na internet – e que nem vou ver de quem é, porque certamente que será ou do Einstein ou do Bob Marley – que diz que errar é humano, mas insistir no erro é burrice. Se assim é, a Sony parece ser estúpida que nem uma porta, na forma como continua a teimar em fazer sequelas e mais sequelas para o Venom. Ou então, tendo em conta que já venderam os direitos do universo cinematográfico do Homem-Aranha à Disney, provavelmente já só estão mesmo a marimbar.

Assim, antes de Venom ser incorporado no universo cinematográfico oficial da Marvel, ainda houve tempo para encerrar a trilogia de Tom Hardy com o simbiose negro. E, indo directo ao assunto – até porque não há duas sem três -, Venom – A Última Dança encerra a série como começou: em queda livre. A alta velocidade. Até se escarrapachar por completo no solo. Felizmente esta será a última vez, até porque Hardy já garantiu que não regressa ao papel. E, com isto, o Motoqueiro Fantasma de Nicolas Cage deixa de ser o pior franchise de sempre da Marvel.

Para quem viu os outros dois filmes, sabe que Tom Hardy é o hospedeiro de um alienígena com poderes especiais, que não se cala um segundo que seja. O filme tenta recriar a química do buddy movie, se bem que aqui é um buddy movie de um homem só (Tom Hardy e uma voz rouca que, meu Deus, não se cala NUNCA… quem disse que Ryan Reynolds é irritante no Deadpool é porque nunca viu um destes filmes do Venom) que leva as coisas até aos limites do bromance. No final, chega mesmo a parecer uma comédia romântica, com Tom Hardy a ver o pôr-do-sol e a suspirar mensagens de saudade e amor eterno ao simbiose… Mas estivemos nós a ver outro filme?

O simbiose não tem um pingo de graça e Venom – A Última Dança volta a não ter noção disso. Por isso, coloca todas as suas fichas numa cena em que o simbiose toma conta de um cavalo, como se isso fosse hilariante, radical ou transgressor. Afinal, é só mesmo chato.

Venom – A Última Dança começa por ser um road movie, com Tom Hardy e o simbiose a procurarem chegar a Nova Iorque a pé (e descalço, num gag recorrente, mas sem qualquer punchline) – e que é um dos formatos preferenciais do buddy movie -, mas que rapidamente muda de forma, porque há um caderno de encargos para cumprir. Desta vez, surge em cena uma divindade demência, Knull (voz de Andy Serkis), que foi o criador dos simbioses, e que precisa de apanhar Tom Hardy, porque este tem o códice que o vai libertar da sua prisão eterna. Felizmente para os dois, o bicho sobrenatural que anda atrás deles só os detecta quando Hardy está transformado totalmente em Venom. Mas o simbiose não resiste a tomar a sua forma total para dançar com Peggy Lu(!) ao som dos ABBA(!!), no momento mais inarrável de toda a trilogia.

Venom – A Última Dança tem momentos em que parece que foi escrito por uma criança de 10 anos e outros em que foi escrito por um bêbado. Ou então por uma criança de 10 anos bêbada? Tendo em conta que Tom Hardy recebeu créditos de argumentista, essa questão até faz mais sentido do que parece. Outra cena impagável é quando há um flashback para contar a origem da doutora Juno Temple, uma das várias personagens secundárias que servem só para encher chouriços: uma jovem Juno Temple observa as estrelas deitada na praia com o irmão, enquanto este faz planos para se tornar cientista da NASA e resolver os mistérios do universo, quando começa a chover, cai um trovão e fulmina o rapaz, deixando a mana traumatizada a ter que cumprir o sonho do irmão custe o que custar(!).

Tal como os dois filmes anteriores, Venom – A Última Dança não termina sem o habitual acto final que é pura masturbação digital, com a inclusão de mais simbioses (sim, era exactamente o que o filme precisava…), que transforma tudo num jogo de computador. É Venom – A Última Dança a aproximar-se daquele gesto pós-pós-modernista de Transformers – O Despertar das Feras, em que é apenas CGI sem nenhum cinema dentro. E, portanto, é o pico do não-cinema. No final, termina tudo com um estrondo: é Venom a bater com estrondo no fundo, dizendo que já não pode descer mais. E isso coincide com a última dentada do Pão com Manteiga, já no vácuo. Mantenham-se longe disto, não lhe toquem nem com uma vara de 3 metros.

Título: Venom – The Last Dance
Realizador: Kelly Marcel
Ano: 2024

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