| CRÍTICAS | Papá Para Sempre

Na comédia norte-americana, seja no cinema ou na televisão, existe um arquétipo das personagens masculinas que chega a ser irritante: homens adultos que se comportam como crianças grandes, porque… boys will be boys. Robin Williams, como qualquer comediante, não escapou a estes papéis – e em Jack foi literalmente uma criança grande -, mas tinha um trunfo que praticamente mais ninguém tem: uns olhos de cachorrinho que faziam com que se arquétipo fosse credível e pelo qual desenvolvíamos empatia.

É por isso que Papá Para Sempre funciona. Por isso e pelos atributos de imitador e de fazer vozes e caretas de Williams. O filme é um dos vários da sua carreira que ficou famoso por lhe dar carta branca para improvisar. Consta que o realizador Chris Columbus tinha sempre três câmaras a rodar e Robin Williams fazia aquilo que sabia fazer melhor, até toda a gente no set estivesse a rebolar a rir. Muitas vezes são precisamente estas improvisações que ficaram na montagem final.

Robin Williams é então um actor que faz vozes para desenhos-animados (e todos pensamos automaticamente em Aladdin), que não consegue manter um emprego pela precariedade da profissão, mas também pela sua atitude… única. A sua esposa (Sally Field) atinge o limite com os seus comportamentos de bebé grande depois dele contratar um jardim zoológico para casa durante o aniversário do filho do meio e acaba por pedir o divórcio. O juiz determina uma visita parental semanal, mas Robin Williams ama tanto os filhos que não consegue ficar longe muito tempo. E como activa os seus olhos de Gato das Botas, nós também nos comovemos com aquele pai capaz de tudo pelos filhos.

O “tudo” aqui é vestir-se como uma velhota inglesa e candidatar-se à posição de ama das crianças. E esse é o outro trunfo de Papá Para Sempre: a caracterização de Williams é óptima, nada danada e nós compramo-la totalmente. Robin Williams passa a fazer parte daquele núcleo familiar de uma outra maneira e todos eles acabam por ser tornar melhores pessoas, incluindo o próprio.

Papá Para Sempre é um dos grandes filmes dos anos 80 que não foi feito nos anos 80. Tem aquela vibe feelgood muito típico dessa década, em que estas histórias de malta de classe média e suburbana era feita com tanta convicção e honestidade que não havia como não acreditar nelas. No caso de Chris Columbus, o seu truque passa pela forma como utiliza a banda-sonora. Edward Shore pode ser uma versão menor de John Williams, mas as suas composições para Papá Para Sempre soam a natal e a despertam automaticamente um certo sentimento de nostalgia.

Papá Para Sempre é assim um dos mais recordados filmes de Williams, tendo ainda sobrevivido ao teste do tempo. Há um par de improvisos meio racistas, mas nada de muito problemático. Já não se fazem Double Cheeseburgers para rir como este, pois não?

Título: Mrs. Doubtfire
Realizador: Chris Columbus
Ano: 1993

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