| CRÍTICAS | Cosmopolis

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Depois de ter construído uma filmografia a explorar os limites do mal, especialmente quando projectados no corpo de outro eu, David Cronenberg começou a teorizar mais sobre este tema. E os seus últimos trabalhos têm vindo a aproximar-se cada vez mais e mais da palavra, num percurso que começou com Uma História De Violência. E essa aproximação tem sido tal que, tanto com este Cosmopolis como com Um Método Perigoso, começou-se a falar de cinema falado, algo impensável aqui há uns anos atrás quando se pensava na obra do canadiano.

Baseado no romance homónimo de Don DeLillo, uma das vozes mais respeitadas da literatura norte-americana que, aqui, antecipou em uma década o colapso do capitalismo, Cronenberg faz de Cosmopolis uma espécie de filme-ensaio, que pode ser o contraponto de um Wall Street ou até do mais lúdico (e recente) O Lobo De Wall Street. E, para isso, recorre-se de ferramentas mínimas: uma personagem (Robert Pattison na pele de um prodígio das finanças americanas) e um espaço (o interior da sua limusina futurista, com um je ne se quoi de sarcófago), numa viagem até ao barbeiro que, como qualquer road movie, vai tendo as suas paragens.

Cada vez que o carro pára e uma nova personagem entra em cena (a esposa, as amantes, o sócio de longa data, o médico, etc.) assistimos a um episódio diferente com smbologia própria. No entanto, nada tem a força do texto, assente sempre nos diálogos, que discorre inevitavelmente pelo poder, pelo sucesso, mas também pelo sexo (sempre o sexo, como percebemos que estava inevitavelmente relacionado com o poder, no filme de Martin Scorsese), o amor e, claro, a vida, nesta sociedade oprimida pelo capitalismo selvagem que tudo consome, incluindo o tempo.

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No entanto, o texto não é fácil e exige disponibilidade por parte do espectador, especialmenge porque fala na maior parte das vezes por imagens. É um texto hermético, que se fecha sobre si mesmo muitas vezes, com nos minutos finais, em que rumina um final em aberto pouco satisfatório com um Paul Giamatti a fazer de si mesmo pela enésima vez (ou seja, de eterno loser). No entanto, consegue ser menos maçudo do que Um Método Perigoso, o mais recente filme de Cronenber, que ilustra este minimalismo com um formalismo estilizado e extremamente urbano, que lembra um Michael Mann a filmar as suas cidades à maneira de um Kubrick.

Cronenberg parece andar a meter-se num beco sem saída, que mais tarde ou mais cedo arrisca a deixa-lo a patinar na maionese. Cosmopolis ainda não é esse filme, mas é um McBacon que serve também de aviso à navegação.mcbaconTítulo: Cosmopolis
Realizador: David Cronenberg
Ano: 2012

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