| CRÍTICAS | É o Fim do Mundo

A equipa Simon Pegg/Edgar Wright/Nick Frost tem sido mais ou menos o equivalente inglês aos norte-americanos Judd Apatow/Seth Rogen/Evan Goldberg, mas com piada. Quer dizer, não é preciso sermos tão mauzinhos. Há que reconhecer que Appatow, Rogen e Goldberg não têm tido medo de arriscar e têm feito as coisas mais subversivas e mais engraçadas da comédia de Hollywood dos últimos anos. É certo que nem sempre têm muita piada, mas Salsicha Party ou Super Baldas são filmes bem catitas.

Serve esta associação também para falar de Isto é o Fim!, o filme-família que utiliza o apocalipse como metáfora para avaliar as relações humanas, a amizade e o meta-existencialismo e que é um primo muito próximo deste É o Fim do Mundo. Tão próximo que chega a ser assustador como é que dois grupos e actores tiveram ao mesmo tempo uma ideia tão próxima, mas ao mesmo tempo tão esquisita.

É o Fim do Mundo é a história de um grupo de amigos que, 20 anos depois, se junta para repetir uma noite de copos épica, em que (quase) fizeram o rally tascas lá do lugarejo onde viviam. A lidera-los estará Simon Pegg, que continua com a mesma bazófia de quando era adolescente e os mesmos objectivos de vida: embebedar-se e fugir às suas responsabilidades, ao contrário dos restantes amigos que parecem estar bem na vida. Este reencontro serve assim, inevitavelmente, para fazerem um ponto de situação e avaliarem as suas vidas, de acordo com os sonhos que tinham quando eram jovens e o mundo era uma janela de oportunidades que se abria à sua frente e com as expectativas. Ou seja, é um Os Amigos de Alex, mas com um rally tascas em vez de um funeral.

A sua vila natal, a que não voltavam também desde que se emanciparam, é que continua igual, parada no tempo, com as mesmas caras e locais inalterados – excepto os bares, que sucumbiram ao capitalismo global da normalização. Até que Simon Pegg decepa um puto na casa de banho de um bar(!), que se revela ser, na verdade, um andróide cheio de líquido azul que parece WC Pato(!!). A meio do filme, Edgar Wright atira o argumento às urtigas e utiliza uma invasão de autómatos como muleta para reflectir sobre o crescimento, sobre ser adulto e sobre a amizade. No fundo, é o mesmo que fez em Shawn of the Dead (recusamos referir o seu título em português), o primeiro filme desta chamada Trilogia do Cornetto, que recorria aos códigos do género do filme de zombies para falar sobre relacionamentos e relações.

Com uma série de robots a tentarem mata-los, o que fazem os amigos? Obviamente a única coisa que poderiam fazer – continuar e tentar terminar o tal rally tascas a que se tinham proposto. Ou não estivessemos nós numa comédia britânica, onde o humor absurdo é a primeira ferramenta a que se recorre para resolver qualquer problema. E, tal como o seu primo Isto é o Fim!, É o Fim do Mundo não faz intenções de parar, esticando a corda até não conseguir mais. E isso faz com que acabe num pós-apocalipse à Mad Max, que serve ainda de crítica divertida à alienação do actual mundo moderno, com toda a sua tecnologia e redes sociais.

Como é que Os Amigos de Alex se transformam no Mad Max? E como é que tudo isto faz sentido, falando de coisas sérias a brincar conseguindo não se escangalhar a rir? Não sabemos muito bem, mas Edgar Wright, Simon Pegg e Nick Frost fazem-no tão naturalmente que nem sequer nos questionamos. E É o Fim do Mundo encerra a Trilogia dos Cornettos com mais um McRoyal Deluxe.mcroyal-deluxeTítulo: The World’s End
Realizador: Edgar Wright
Ano: 2013

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