| CRÍTICAS | O Despertar da Mente

Se o amor pudesse ser transformado num filme, esse filme seria O Despertar Da Mente. É que O Despertar Da Mente é talvez a mais bela e completa história de amor do cinema; não só dos lados positivos, mas também dos negativos que uma relação comporta – não só o paraíso, mas também o inferno do amor. E depois porque não é o habitual romance, lamechas e romântico – é um desabafo instantâneo e previsível, quase como uma reacção química. E, por último, comporta a mais alta essência do amor: o amor verdadeiro é invencível e não pode ser barrado.

Joel Barish (Jim Carrey) é um jovem introvertido que decide apagar da sua mente todas as recordações acerca de Clementine Kruczynski (Kate Winslet) através de um inovador método científico, depois da relação de ambos ter estoirado os últimos cartuchos. Pelo menos aparentemente, porque o processo afinal não vai ser assim tão fácil – é que o verdadeiro amor não pode ser apagado. O que parecia ser um simples começar de novo, à boa maneira de Vanilla Sky, torna-se numa batalha feroz contra o esquecimento, numa tentativa desesperada de salvar as mais preciosas recordações.

Aqui entra em acção o brilhantismo de Michel Gondry e Charlie Kaufman. Kaufman é sem dúvida um dos mais talentosos e originais argumentistas que o cinema já pariu (Queres Ser John Malkovich e Inadaptado são prova disso) e este O Despertar Da Mente é o seu melhor cartão de visita. E a dupla com Gondry volta a funcionar na perfeição, com este a ilustrar a história de Kaufman (porque este é um filme de argumentista, acima de tudo) de forma brilhante, com aquela sua bricolage caseira com pinceladas de surrealismo, em que ficção e realidade se misturam e nunca sabemos com exactidão qual é qual. O Despertar Da Mente é assim um hino ao amor. É certo que um pouco demente e rebuscado, mas não nos podemos esquecer que saiu da mente de Charlie Kaufman.

No fundo. está lá tudo – o amor é uma das premissas supremas da vida e o amor verdadeiro não pode ser apagado ou evitado, sendo capaz de contornar inclusive o destino, qual efeito O Feitiço Do Tempo. E o filme faz questão de mostrar que esta história não é um caso único, já que nos dá outras histórias paralelas secundárias: o semelhante caso amoroso entre Kirsten Dunst e Tom Wilkinson, ou a tentativa de alimentar um amor falso de Elijah Wood para com Kate Winslet, à semelhança do que Bill Murray tentou fazer numa primeira instância nesse mesmo O Feitiço Do Tempo. É sem dúvida uma história já muitas vezes contada, mas pela primeira vez é contada desta forma. E é um Royale With Cheese.Título: Eternal Sunshine Of The Spotless Mind
Realizador: Michel Gondry
Ano: 2004

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