| CRÍTICAS | Coriolano

De quando em vez surge uma adaptação de uma peça de Shakespeare aos tempos modernos. Não é propriamente uma novidade e ninguém acha sequer estranho. Isto porque elas são, invariavelmente, intemporais e tanto se adaptam à época na qual foram escritas originalmente como nos dias de hoje. O que é uma das provas da genialidade do escritor inglês.

Coriolano é uma adaptação anacrónica da peça homónima para os dias de hoje, imaginando Roma como uma espécie de região dos Balcãs, onde as cenas de guerra parecem ser importadas dos antigos noticiários da guerra da Bósnia. A história é uma tragédia sobre poder, honra e orgulho, sobre o general Coriolanus (Ralph Fiennes que se estreou aqui na cadeira de realizador também), um herói de guerra cuja reputação junto do grande público sobe e desce à medida em que vai sendo manipulada por terceiros sempre que is interesses pessoais se sobrepõem aos colectivos.

Enquanto que na peça original são os bastidores políticos que interferem nesta relação de Coriolanus com o poder e o público, aqui são os media e os canais de comunicação que assumem esse papel, fazendo uma metáfora com a globalização dos dias de hoje. Aliás, os noticiários televisivos e o respectivos oráculos tomam aqui o lugar do coro grego, numa obra que é filmada com essa mesma linguagem televisiva. Afinal de contas, a partir dos anos 90 – da guerra do Iraque e, claro, da guerra na Jugoslávia – as guerras passaram a ser transmitidas em directo e decididas na televisão.

Ralph Fiennes mantém a linguagem arcaica de Shakespeare, numa opção semelhante à de Baz Luhrmann em Romeu + Julieta, o que é sempre uma opção respeitável tendo em conta a força da escrita do bardo inglês. Claro que para isso necessita de ter actores que o saibam fazer e Ralph Fiennes escolhe bem o seu elenco: ele próprio, claro, com uma intensidade brutal, mas também Gerard Butler, Vanessa Redgrave ou Brian Cox.

Coriolano não se limita a ser teatro filmado, transformando-se numa das melhores adaptações cinematográficas de William Shakespeare. E Ralph Fiennes tem aqui um dos seus papeis mais badass da sua filmografia, mais ainda que Fúria de Titãs, por exemplo. Um McChicken que agradará tanto aos amantes de tragédias gregas como aos maluquinhos dos war movies.Título: Coriolanus
Realizador: Ralph Fiennes
Ano: 2011

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