| CRÍTICAS | O Grande Gatsby

Se não soubessemos que O Grande Gatsby, o grande clássico da literatura moderna norte-americana de F. Scott Fitzgerald, foi publicado em 1925, até acreditaríamos que o filme de Baz Luhrmann tinha sido feito de propósito para Leonardo Di Caprio. Afinal de contas, existem grandes semelhanças entre Jay Gatsby e Di Caprio, ambos conhecidos por darem grandes festas onde a discrição não é propriamente a palavra de ordem (se bem que o objectivo de Fitzgerald era criticar essa sumptuosidade fútil, as Gatsby Party tornaram-se num símbolo de diversão e boa vida). Por isso, não é de admirar que aquele plano de apresentação de Di Caprio (que lembra o outro, de Crepúsculo dos Deuses, outro filme sobre (outro tipo de) decadência), em plena festa de copo de champanhe na mão, se tenha tornado num meme.

Além disso, O Grande Gatsby parece a preparação de Leonardo Di Caprio para O Lobo de Wall Street. Ora vejamos: Jay Gatsby é uma espécie de empreendedor aldrabão, que faz riqueza a partir do zero, tornando-se no homem mais popular de Nova Iorque. Estamos naquela época de grande euforia, entre o final da Primeira Guerra Mundial e o início da Grande Depressão, que tal como nos anos 80, vivia-se um ambiente em que tudo era possível e o dinheiro fácil estava ao virar da esquina. Por isso, é queO Grande Gatsby é mais O Lobo de Wall Street do que O Mundo a Seus Pés.

Depois do melodrama de faca e alguidar de Austrália, Baz Luhrmann atira-se a mais um clássico da literatura, após Romeu + Julieta, à sua própria maneira. Ou seja, com muito exagero, de forma quase operática e com muito anacronismo. Contudo, esse anacronismo que se detecta sobretudo nos remixes que faz com a banda-sonora apenas se detecta aqui nas festas de Gatsby, onde há hip-hop com fartura, música pop e um pianista descendente de Beethoven de ténis (interpretado por Brendan Maclean). Luhrmann é um tipo que gosta de excessos, mas que usa o CGI não para criar monstros fabulásticos ou peripécias de meter inveja ao Evil Knievel, mas antes para criar long shots que envergonham os de Brian De Palma, planos picados impossíveis e outros truques de câmara que são mais uma demonstração à volta do umbigo como quem diz “olhem olhem, o que eu consigo fazer” do que um veículo dramático para a sua própria história.

Isto acaba por desviar as atenções de uma tragédia shakespereana perfeita, que monta um triângulo amoroso entre Gatsby, a sua amada perdida Daisy (Carey Mulligan) e o actual marido desta, Tom (Joel Edgerton). Tudo isto é narrado por uma espécie de espectador privilegiado da trama, que é o primo de Daisy, Nick (Tobey Maguire), e que assume quase o papel do coro grego nesta reflexão sobre o poder, o amor, a decadência e o moral.

No seu cinema barroco over the top, Baz Luhrmann passa por cima de toda a folha, como se fosse um rolo compressor: há a música, como havia em Moulin Rouge, há o mesmo cinema garrido e cheio de ganas que conhecemos dos melodramas de Pedro Almodóvar, há um mastigar e deitar fora do cinema clássico norte-americano (e Crepúsculo dos Deuses aparece citado duas vezes, a última naquele plano na piscina que é, provavelmente, o mais famoso do filme de Billy Wilder) e há as novelas domésticas de Douglas Sirk, sempre mais carregadas e sublinhadas a grosso. O que significa que O Grande Gatsby é uma viagem numa montanha russa, onde o que perde em subtileza ganha em virtuosismo técnico. Ganha o cinema (às vezes), perde a literatura e ficamos no meio termo de um Double Cheeseburger.Título: The Great Gatsby
Realizador: Baz Luhrmann
Ano: 2013

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