| CRÍTICAS | Paterson

Os filmes de Jim Jarmusch sempre foram uma espécie de poemas, normalmente etéreos, quase a desvanecerem-se, outras vezes meio surrealistas e místicos. É por causa dessa faceta mais sensível que o apelidam muitas vezes do realizador norte-americano mais europeu de todos. E, no entanto, nunca antes Jarmusch tinha feito um filme tão directamente relacionado com a poesia como este Paterson.

Paterson (Adam Driver) é então um condutor de autocarros que escreve poesia nas horas vagas (ou será o contrário?). Os seus poemas, ao redor dos quais se vai desenrolando calmamente o filme, são na verdade da autoria de Ron Padgett, um dos poetas contemporâneos favoritos de Jarmusch. E as suas grandes influências são Mark O’Hara e William Carlos Williams, dois poetas da escola de Nova Iorque. E, de repente, apercebemo-nos de como a filmografia de Jim Jarmusch se enquadra nesta corrente artística modernista, com a sua linguagem coloquial, um ritmo mais musical do que propriamente formal, os assuntos temáticos do dia-a-dia e uma estética livre e clara. Agora é uma questão de tempo até alguém escrever uma tese de mestrado sobre isto. Fica a ideia. De nada.

A poesia que Paterson escreve não rima e, portanto, Jim Jarmusch deixa essas rimas para uma série de duplicidades que vai expondo ao longo do filme, começando logo pelo nome do protagonista que é o mesmo que o da cidade onde vive, terminando com a longa série de gémeos que se cruzam com ele numa espécie de anti-simbolismo. Tudo isso dá um toque meio surrealista a uma história altamente simples (mas não simplista), em que seguimos o quotidiano de Paterson ao longo de uma semana, entre a sua poesia, o trabalho, a vida em casa com a namorada (uma Golshifteh Farahani altamente vidrada em motivos geométricos a preto e branco) e os passeios com o seu buldogue francês (devidamente creditada, ou não tivesse uma presença forte na trama) até ao bar onde bebe um copo à noite.

Paterson é como aqueles poemas que, por não obedecerem à estrutura básica (e óbvia) do ABAB ou ABBA, a maioria das pessoas declara logo que não gosta porque não rima. É que em Paterson também não se passa nada, se o compararmos com aqueles filmes em que enchem o ecrã de masturbação digital e fogo-de-artíficio feito em CGI que parece a Disneylândia. E, tal como os poemas que não precisam de rimar para serem poesia, Paterson é um filme que não precisa de muito para ser um belo pedaço de cinema e colher a nossa simpatia. É que quem olhar apenas para o McChicken da imagem abaixo e não ler esta crónica opinativa pode não perceber o quão gostámos dele. O que se passa é que de Jim Jarmuch queremos sempre mais e melhor.Título: Paterson
Realizador: Jim Jarmusch
Ano: 2016

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