| CRÍTICA | Beleza Americana

Antes de Walter White ter passado para o outro lado, em Ruptura Total (if you know what I mean), já outro tipo igualmente ordinário tinha perdido completamente as estribeiras. Falo de Lester Burnham, ou seja, Kevin Spacey, no oscarizado Beleza Americana, o filme que revelou Sam Mendes e o transformou simultaneamente num dos mestres de um tal de cinema clássico norte-americano.

Lester Burnham é então um tipo vulgar, com um casamento que só serve para manter a fachada junto de terceiros e uma filha emo (Thora Birch) que o detesta. Até que um dia se apaixona por uma amiga da filha (resplandecente Mena Suvari) e decide dar um murro na mesa, passando a viver a sua vida e não a que os outros queriam que vivesse. Começa a ouvir rock’n’roll, a fazer exercício e a comprar erva ao vizinho do lado, impondo-se no casamento e recuperando a sua espinha dorsal.

Beleza Americana é uma sátira acutilante à suburbia norte-americana, deixando cair as máscaras da classe média americana: o dinheiro, a repressão sexual, a homofobia, as drogas, a hipocrisia… Para isso, Sam Mendes recorre a uma estrutura narrativa mais que batida, mas que é também ela uma instituição do cinema de Hollywood – a de começar pelo fim e recuar ao início da história pela voz da narração do próprio protagonista, que revela ir morrer no fim (olá O Crepúsculo dos Deuses). Era Mendes a entrar directamente no comboio dos novos autores clássicos americanos, onde ainda estava Robert Altman, mas também Paul Thomas Anderson, por exemplo.

Com um leque de actores notáveis, Mendes mantém o ritmo com os diálogos escorreitos e as situações grotescas: o pai autoritário do tal vizinho do lado, a quem Kevin Spacey compra erva, a filha emo com todos os seus dilemas existenciais da adolescência ou o amante da mulher, um agente imobiliário extremamente focado em dinheiro. Douglas Sirk teria adorado o cenário. E Nabokov veio da tumba espreitar esta variação light da sua Lolita, com Mena Suvari a aparecer irresistível mergulhada em pétalas de rosa.

Apesar de um final algo moralista – Sam Mendes não é um Buñuel na sua crítica de costumes -, Beleza Americana cumpre com distinção o seu caderno de encargos, num ano em que o Oscar de melhor filme ficou bem entregue. E Sam Mendes colocou-o certamente ao lado do nosso Royale With Cheese.Título: American Beauty
Realizador: Sam Mendes
Ano: 1999

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