| CRÍTICAS | Especial Conan

Existe, papeis que são feitos para um actores e existem actores que nascem para determinados papeis. É essa a diferença entre o T-900 e o Conan de Arnold Schawarzenegger. Enquanto que o seu robot viajante no tempo foi moldado à sua medida, o seu bárbaro adorador de Crom já existia e estava apenas à sua espera. Por isso, por mais samoanos ou sacos de músculos que metam a fazer de Conan, Arnie será sempre e só o original.

Conan e os Bárbaros foi o primeiro de dois filmes – que deveriam ter sido quatro – em que Schwarzenegger incarnou o herói de banda-desenhada criado por Robert E. Howard. Por isso, como em qualquer primeiro volume de uma série, este também é destinado à origem do herói, desde a sua infância de escravo e órfão até a sua ascensão enquanto gladiador, culminando, no auge, com a sua coroação de rei.

Apesar de parecer ser apenas mais uma aventura de sword and sorcery, género altamente associado a crianças ou a nerds sem vida destinados a manterem a sua virgindade até aos 40 (ou, pelo menos, era isso que acontecia até ao fenómeno Senhos dos Anéis), Conan e os Bárbaros é um épico à Cecil B. DeMille, mas com dragões e bruxas em vez de versículos bíblicos. Isso imprime-lhe uma solenidade shakespereana, com os cenários imponente, a banda-sonora monumental (que continua a ser copiada até à exaustão) e a luz recortada a dar-lhe um efeito teatral, ao qual as cenas de pancadaria, altamente encenadas e falsamente coreografadas, ajudam a ampliar.

É certo que para a posterioridade ficam cenas como a que Arnie esbofeteia um camelo ou mata um abutre à dentada, mas Conan e os Bárbaros está cheio de cenas com cinema lá dentro, cortesia do realizador John Milius. A mais inesquecível é logo a abrir: depois de 20 minutos quase sem diálogos, James Earl Jones (que, tal como Jeff Goldblum há de ser sempre o tipo de A Mosca, será sempre o tipo que matou os pais de Conan) decapita a sua mãe, numa cena em câmara-lenta tão sugestiva quanto dramática.

Se à superfície Conan e os Bárbaros parece uma simples aventura construída por níveis, que o herói vai ultrapassando obstáculo a obstáculo, no fundo o filme é bem mais do que isso. Tal é perceptível no pouco usual facto de estarmos a falar de um filme cujo protagonista é o epítome do anti-herói. Apesar do título em português tentar mascarar isso, Conan é o verdadeiro bárbaro da história, imoral e cruel, que não tem problemas em citar Ghengis Khan: the greatest pleasure is to vanquish your enemies and chase them before you, to rob them of their wealth and see those dear to them bathed in tears, to ride their horses and clasp to your bosom their wives and daughters. Quanto ao resto, é uma reflexão sobre o poder, a religião e o totalitarismo.

Finalmente, há em Conan e os Bárbaros um Arnold Schwarzenegger na sua melhor forma, passeando os seus músculos e a sua espada de forma brutalmente iconoclasta. Conan e os Bárbaros é um dos seus melhores McRoyal Deluxes e ainda hoje lamentamos que só tenha tido uma sequela até Arnie se fartar.

Título: Conan the Barbarian
Realizador: John Milius
Ano: 1982

Conan, o Destruidor começa exactamente como nos lembrávamos dele: um ladrão salteador com um sidekick cobarde? Não, não, não, esperem lá. Conan e os Bárbaros acabava com Arnold Schwarzenegger coroado rei, sentado no seu trono imponente. Então o que aconteceu? Dino de Laurentiis aconteceu.

Conan, o Destruidor tornou-se na típica produção da família de Laurentiis, ou seja, num filme de fantasia de baixo orçamento, com muito efeito especial de qualidade duvidosa (kitsch será o adjectivo certo) e um argumento de requisitos mínimos. Além disso, o filme sofreu um downgrade em relação ao seu predecessor, na tentativa de não ser tão negro e violento para agradar a toda a família. Aliás, foi precisamente essa mudança de orientação do filme que fez Arnie perder o interesse na personagem e abandonar os planos para as outras duas sequelas que estavam previstas.

Conan é então o rei dos ladrões e é contratado por uma bruxa malvada (Sarah Douglas) para acompanhar a jovem e virgem princesa Jehnna (Olivia D’Abo) ao castelo de um mago, para lhe roubar um chifre místico que permite invocar um demónio maligno (incarnado por um não creditado Andre, the Giant). A acompanha-los seguem o chefe de armas da rainha, Bombaata (Wilt Chamberlain, o mítico ícone da NBA, que uma vez confessou ter dormido com vinte mil mulheres e que aqui tem que… defender a virgindade de uma jovem) e o tal sidekick cobarde, que tem também a seu cargo o comic relief. Pelo caminho, Conan vai ainda buscar o feiticeiro de Conan e os Bárbaros (Mako) e resgatam o ícone do pós-modernismo dos anos 80, Grace Jones.

Grace Jones é precisamente o melhor de Conan, o Destruidor e só é pena ter pouco tempo para brilhar. Com o seu estilo exagerado e uns crazy eyes esbugalhados, Jones lembra amiúde Nicolas Cage, especialmente no seu brilhante A Outra Face, esse clássico dos bons maus filmes. Mas a sua prestação acaba diluída por entre um filme construído por vinhetas, em que os heróis vão avançando por entre ameaças que têm que ultrapassar como num jogo de computador, atadas mal e porcamente por uns diálogos fraquinhos.

Pelo meio, fica uma sequência numa sala de espelhos, inspirada no final do Dragão Ataca, mas com um tipo com uma máscara de borracha e a língua de fora (porque é a única coisa que consegue mexer) a lutar contra Arnie, que fica na memória como o momento mais involuntariamente cómico do franchise; e o final inesperadamente sangrento, que não tem nada a ver com o resto do tom familiar do filme. Pelo meio, uma série de tropelias e aventuras que rapidamente se desvanecem das nossas memórias, materializando-se apenas no seu lugar uma caixinha do Happy Meal.Título: Conan the Destroyer
Realizador: Richard Fleischer
Ano: 1984

Conan e os Bárbaros há de ser sempre um marco no cinema de acção. Não tanto pelo bom filme que é, mas por ter sido o filme que transformou Arnold Schwarzenegger no super-action-hero. É certo que era um filme feito à medida de Arnie – não tinha que falar muito e podia passear o seu corpo mister Universo -, mas fez história. Depois de se ter desencantado com o rumo que a personagem tomou em Conan, o Destruidor, numa infantilização para toda a família, Arnie abandonaria os planos para as sequelas seguintes e tornaria-se, mais tarde, no Conan, o Governador e no Conan, o Fazedor de Filhos em Série.

Mas como Hollywood continua a ignorar a expressão life goes on, o franchise foi desenterrado e refeito, em mais um dos mil e um remakes que agora estreiam mensalmente por aqueles lados. Chamou-se um tarefeiro bastante competente em slashers para o realizar, Marcus Nispel (e que até tem um filme muito semelhante no currículo, Pathfinder – O Guerreiro do Novo Mundo), mas aqui ninguém quer saber do realizador para nada. Interessa é o protagonista. E o novo Conan, depois de muitos rumores, acabou por ser Jason Mamoa (os mais atentos são capazes de se lembrar dele do Marés Vivas), um saco de músculos com o mesmo (falta de) jeito para representar Arnie, mas com um cabelo de modelo de penteados e o mesmo bronze e mau feitio que o Bruno Alves.

O problema em Conan, o Bárbaro não é tanto o protagonista (e aqui é incontornável as comparações com Conan e os Bárbaros), mas antes Marcus Nispel. Enquanto que o original era um épico de vingança de o último dos bárbaros pelo tipo que lhe matou o pai, aqui é apenas um anónimo blockbuster de acção, em que a vingança de Conan é apenas mais um cliché numa trama construída por episódios, qual jogo de computador. Mais uma vez, Hollywood a nivelar por baixo o nível de inteligência dos seus espectadores. Obrigado, Hollywood.

Mas Conan, o Bárbaro acaba por ter alguns toques interessantes. Primeiro, Nispel faz uma reconstrução de épica curiosa, que mistura piratas, impérios persas das mil e uma noites, mitologia bárbara, romanos e sword & sorcery. E depois, inesperadamente, o filme não se rebaixa ao politicamente correcto para toda a família, com um gore jeitoso e mais ou menos gráfico, que o retiram imediatamente das programações de domingo à tarde.

Apesar do fraco argumento (ou da falta dele), Conan, o Bárbaro até se aguenta à tona de água sem naufragar. Sorte de principiante ou não, fica para se tirar as dúvidas na sequela. Para já, um Double Cheeseburger.Título: Conan The Barbarian
Realizador: Marcus Nispel
Ano: 2011

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