| CRÍTICAS | Suburbicon

Na sua curta carreira como realizador, George Clooney já provou que não é apenas um nome conhecido que passou para trás das câmaras por capricho. É um realizador com critério, adepto de uma certa ideia de cinema clássico, claramente influenciado pelo período áureo de Hollywood. É certo que no anterior The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros se espalhou ao comprido, mas títulos como Boa Noite e Boa Sorte ou Nos Idos de Março fazem com que mereça de longe o nosso crédito.

Suburbicon, realizado a partir de um argumento dos irmãos Coen, não só mergulha nessa ideia de cinema clássico, como é ele próprio ambientado nos anos 50, aquela época de grande euforia e prosperidade nos Estados Unidos. O cenário é um daqueles bairros nos subúrbios, com as casas repetidas a papel químico umas das outras, com o seu quintal e cerca branca, a dar forma ao sonho urbanístico perfeito da Broadacre, de Frank Lloyd Wright. Até que uma família negra se muda para Suburbicon e lá se vai a normalidade…

O cinema está farto de nos mostrar que a normalidade destes subúrbios é sempre apenas aparente. David Lynch (olá Veludo Azul!) é quem melhor sobre explorar essa dicotomia, mas os exemplos são inúmeros, desde os melodramas de faca e alguidar de Douglas Sirk, ao surrealismo fabulástico de Eduardo Mãos-de-Tesoura ou a distopia de The Truman Show – A Vida em Directo. E Suburbicon não é excepção.

O episódio da família negra na vizinhança serve, não só, para ilustrar esta ideia, como de metáfora para os dias de hoje, em que casos como o de Ferguson ou o movimento Black Lives Matter nos fazem pensar que estamos a regridir enquanto civilização. O filme está pontuado por uma série de intervenções de populares, que dizem coisas incríveis como eu sou a favor da integração racial, mas eu tenho o direito a viver num bairro só com brancos. Poderia ser comédia negra mais ou menos involuntária, se não víssemos estas ideias replicadas e ampliadas até à exaustão em todas as caixas de comentários por essa internet fora.

Contudo, todo este episódio é apenas o pano de fundo de Suburbicon, uma vez que este é, na realidade, um filme de crimes e enganos, sobre o assalto à casa de Matt Damon que leva à morte mais ou menos acidental da sua esposa, Julianne Moore (que interpreta também a sua irmã gémea). Todos já vimos Fargo e sabemos o que vai acontecer – no fim até é um daqueles finais à Guy Ritchie, circa Um Mal Nunca Vem Só ou Snatch – Porcos e Diamantes -, mas George Clooney vai gerindo a coisa com calma e savoir faire.

Nicky (excelente Noah Jupe), o filho da família, acaba por ser o único que descobre a verdade e, do seu ponto de vista, Suburbicon é como aqueles filmes em que as crianças é que são as detentoras da verdade, num mundo de adultos (leia-se falsidades). O molde pode ser tanto O Que Viram os Meus Olhos como o próprio A Sombra do Caçador. E, ao aperceber-se disso, George Clooney filma-o como um filme de terror, nas melhores sequências de Suburbicon, com uma banda-sonora a condizer.

Clooney redimi-se assim de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, com um belo filme à irmãos Coen, mas que ele sabe fazer suficientemente seu. E ainda tem Oscar Isaac em estado de graça, a quase roubar o filme por completo em pouco mais de um quarto de hora de cena. Este McRoyal Deluxes é para guardar com carinho.

Título: Suburbicon
Realizador: George Clooney
Ano: 2017

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