| CRÍTICAS | A Hora Mais Negra

Há uma forma curiosa de ver A Hora Mais Negra: como uma espécie de prequela não-oficial de Dunkirk. No mínimo, ambos serão as faces da mesma moeda, já que contam, com nível de pormenor diferente, os dois eventos que trouxeram uma luz de esperança na mais negra hora do século XX. Quando o avanço do blitzkrieg alemão parecia imparável no auge da Segunda Guerra Mundial, dois episódios viriam mudar as peças do tabuleiro. Primeiro, a eleição de Winston Churchill para primeiro-ministro inglês; e segundo a batalha de Dunquerque. Pearl Harbor ficará para outras núpcias…

A Hora Mais Negra não é assim um biopic sobre Winston Churchill, mas antes um relato do que se passou no seu primeiro mês na cadeira do poder britânica. Primeiro, a sua ascensão a sucessor do primeiro-ministro Neville Chamberlain, não pelas suas aptidões exemplares (era mais conhecido pelo seu mau feitio, hábitos alcoólicos e pouco discernimento em questões fundamentais), mas porque era o único nome que a oposição aceitaria para liderar uma coligação no poder após a desconfiança incontornável em Chamberlain; e depois todo o processo em contramão, insistindo numa política de confronto a Hitler em detrimento das negociações de paz, como era intenção do resto do seu partido, que parecia condenado ao insucesso até aquele momento decisivo em Dunquerque, quando tudo voltou a parecer possível.

A Hora Mais Negra é então um filme sobre os meandros da política nos bastidores do mais importante conflito bélico do século XX (de sempre?), a partir do ponto de vista inglês. E tendo como herói um imprevisto adepto da pinga, com alto mau feitio e que gritava mais do que seria desejável. O realizador Joe Wright, cujos melhores títulos da sua filmografia são filmes de época (olá Orgulho e Preconceito, olá Expiação), tem aqui o filme de época por excelência, naquele filme de prestígio que os ingleses fazem como ninguém. E um Gary Oldman irreconhecível na pele de Churchill tem aqui um daqueles papeis que definem uma carreira, o que não deixa de ser impressionante tendo em conta que Oldman já teve várias personagens de composição igualmente notáveis – que vai do Drácula ao Diabo.

O problema de A Hora Mais Negra é que parece não aguentar o peso da sua própria responsabilidade e, no último terço, afunda-se em demasiado protocolo. Joe Wright ensaia um outro plano mais original e ainda tenta enfiar a martelo a personagem da jovem secretária, interpretada por Lily James, mas esta só serve, por exemplo, para nos dizer o que sentir em determinadas fases do filme. Ou seja, altamente dispensável. O que não significa que o filme seja de se deitar fora. Enquanto documento histórico e pela interpretação de Gary Oldman, merece à vontade o McChicken que leva daqui.Título: Darkest Hour
Realizador: Joe Wright
Ano: 2017

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