| CRÍTICAS | O Sacrifício do Cervo Sagrado

Goste-se ou não, Yorgos Lanthimos é um dos poucos realizadores contemporâneos que tem desenvolvido um cinema verdadeiramente autoral, que se distingue a léguas de distância. E, juntamente com Nicolas Winding Refn (que também divide a crítica e o público entre os que o amam e os que o detestam), é o único que consegue chegar às grandes massas, tendo dado o salto para Hollywood depois de apenas dois filmes na sua Grécia natal.

Depois de A Lagosta, Lanthimos apura ainda mais o seu cinema, no mais recente O Sacrifício do Cervo Sagrado. O formalismo kubrickiano levado ao extremo, as representações narcóticas (que fazem lembrar a experiência de Coração de Gelo, de Werner Herzog, com os actores hipnotizados) ou o absurdo em situações improváveis, que por isso nos deixam desconfortáveis. E por falar em Stanley Kubrick, para O Sacrifício do Cervo Sagrado, Lanthimos deve ter andado a ver De Olhos Bem Fechados, não pela presença de Nicole Kidman, mas pelo mesmo escarafunchar na vida matrimonial.

O Sacrifício do Cervo Sagrado é um filme cruel, a que Michael Haneke teria chamado um figo. Colin Farrell é um cirurgião com um passado de alcoolismo, que certo dia é colocado entre a espada e a parede pelo filho esquisito (Barry Keoghan, num esquisito perturbador) de um paciente seu que morreu: ou mata um dos membros do seu núcleo familiar ou eles vão adoecer até morrerem todos. É uma espécie de sacrifício bíblico, que pela temática faz lembrar as alegorias recentes de Lars Von Trier (olá Anticristo, como estás?), e que, tal como A Lagosta, é uma metáfora que deixa determinados pormenores propositadamente por explicar (nesse filme anterior era o como é que as pessoas são transformadas em animais e aqui é como é que eles adoecem).

Devido à sua rigidez e ao absurdo de algumas situações, O Sacrifício do Cervo Sagrado pode parecer demasiado planeado, demasiado cerebral. Mas à medida que vai avançado, vai-nos enleando naquele labirinto tétrico e cola-se à pele para não nos deixar escapar. É misterioso, estranho (no bom sentido, não no sentido David Lynch), perturbador e, mesmo assim, não conseguimos deixar de olhar para ele. Tudo coisas que descrevem os Royales With Cheese de que gosto.

Título: The Killing of the Sacred Deer
Realizador: Yorgos Lanthimos
Ano: 2017

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *