| CRÍTICAS | Geada

Manoel de Oliveira viveu praticamente toda a sua vida com o rótulo de cineasta lento e chato. E, no entanto, a maioria dos que o acusavam de fazer filmes onde não se passava nada nunca viram sequer um dos títulos da sua filmografia. E, muito menos, nunca viram filmes de gente como Sharunas Bartas, que alguém descreveu há pouco tempo aqui na internet como o recordista mundial do aborrecimento cinematográfico.

O lituano está de regresso às nossas de cinema com Geada, road movie sobre um disfuncional casal de jovens namorados (Mantas Janciauskas e Lyja Maknaviciute), que vão levar uma carrinha cheia de ajuda humanitária desde Vilnius até à Ucrânia. Devia ser, supostamente, uma viagem tranquila, mas à medida que o destino os leva para perto de Donetsk, o perigo vai aumentando exponencialmente. Bartas vai no carro ao lado, no automóvel do cinema verité, limitando-se a apontar a câmara e a filmar. Sabemos que nos road movies interessa mais a viagem do que o destino, mas Geada tem sempre mais questões do que respostas.

Imaginamos que existam aqui reflexões sobre o amor e sobre as relações, porque há uma sequência numa festa num hotel (onde surge Vanessa Paradis, bons olhos a vejam) que termina com uma traição. No entanto, é tudo tão inconsequente que só podemos mesmo imaginar que há ali uma qualquer reflexão sobre qualquer coisa. Também há monólogos apaixonados e algumas ideias sobre a guerra, a sua desumanização e até o poder da imprensa nos conflitos, que são mais óbvias porque, quando filme se aproxima das linhas da frente, o cinema verité dá lugar ao docudrama.

No fim, há um plano final que vale todo o filme e isso diz muito de Geada. Mas o filme todo não vale, nem de perto nemde longe, esse plano final. Anda demasiado perto da irrelevância para lhe darmos algo mais do que um Happy Meal para Sharunas Bartas levar para o jantar, em casa.

Título: Frost
Realizador: Sharunas Bartas
Ano: 2017

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