| CRÍTICAS | Custódia Partilhada

O matrimónio pode ser um campo de batalha brutal. Lembram-se de A Guerra das Rosas? E quando o casamento passa a divórcio, então podemos começar a entrar pelos terrenos da crueldade, da violência e de uma certa desumanização. E se houver crianças pelo meio, elas é que são a que sofrem mais.

Custódia Partilhada é um filme acerca de uma situação dessas, sobre uma disputa parental pela custódia do filho mais novo (uma estreia abismal de Thomas Gloria), num daqueles casos em que os pais parecem perder todo o juízo e, esquecendo o que é melhor para os filhos, embarcam numa luta sem tréguas que tem tanto de irrazoável quanto de egoísta. Já todos vimos Kramer Contra Kramer, mas a cena inicial de Custódia Partilhada, com os pais, respectivos advogados e a juíza numa audiência preliminar, cheia de acusações e ameaças, deixa uma linha que não podia resumir melhor a coisa: qual de vocês mente mais?

Quem folheia o Correio da Manhã (credo, não acredito que escrevi isto… vou já ali cobrir-me de chibatadas em penitência) no café, sabe que está cheio de histórias de violência doméstica, normalmente do homem sobre a mulher. Todas elas terminam da mesma forma, salvo as ligeiras variações, mas raramente sabemos o que levou a esse ponto. Custódia Partilhada conta uma história que teria lugar de caras numa das páginas de abertura do Correio da Manhã (argh, outra vez…), mas contextualiza-a e explica-nos como é que esse tipo de casos acontece.

Um dos grandes trunfos do realizador Xavier Legrand é que nunca tira partido de nenhum dos lados (até porque nestes casos nunca há um lado certo e outro errado, todos são culpados) nem tão pouco utiliza o lado condescendente, até porque era tão fácil abusar do melodrama e do tearjerker fácil. Xavier Legrand gere a tensão do filme como uma enorme (mas ao mesmo tempo tão simples) panela de pressão e, quando no final tudo se transforma no Shining(!) – e Legrand chamou-lhe um thriller do real -, atinge-nos em cheio no estômago, sem qualquer contemplação ou pena por nós. Não nos sentíamos tão desconfortáveis na cadeira do cinema desde que vimos Monica Belucci a ser atacada no Irreversível e nós ali, sem fazer nada, apenas a assistir, num espectáculo grotesco.

E, como se não bastasse o final em seco, sem banda-sonora, que nos deixa sentados na escuridão da sala de cinema em silêncio, enquanto passa o genérico, Custódia Partilhada ainda fecha com um plano que nos atira à cara a evidência que até então ainda resistíamos a aceitar: episódios como este acontecem regularmente nas nossas barbas e, a maior parte das pessoas, tende a ignorar. Até porque a sabedoria popular continua a atirar para a ordem do dia aquela máxima do entre marido e mulher não se mete a colher, como justificação para o injustificável. Quem diria que Custódia Partilhada, com o seu Le Big Mac recebido neste tasco cinéfilo, seria o melhor filme de terror do ano até há data?Título: Jusqu’à La Garde
Realizador: Xavier Legrand
Ano: 2017

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *