| CRÍTICAS | Sete Estranhos no El Royale

Os hotéis são territórios perfeitos para a criação cinematográfica. Afinal de contas, são um conjunto de micro-universos, altamente controlados, num território neutro, onde tudo é possível acontecer. Basta ver exemplos de natureza mais ou menos séria, como O Hotel ou Quatro Quartos (alguém devia escrever uma tese de mestrado sobre esta relação entre Cinema e hotéis).

Os hotéis são territórios perfeitos para a criação cinematográfica. Afinal de contas, são um conjunto de micro-universos, altamente controlados, num território neutro, onde tudo é possível acontecer. Basta ver exemplos de natureza mais ou menos séria, como O Hotel ou Quatro Quartos (alguém devia escrever uma tese de mestrado sobre esta relação entre Cinema e hotéis).

Sete Estranhos no El Royale é mais um título para colocar nesta família de filmes. E se, em cima, referi o Quatro Quartos, isso não foi inocente. É que Sete Estranhos no El Royale pode ser uma espécie de primo afastado desse trabalho colectivo (é o melhor filme colectivo de sempre?) de Allison Anders, Alexandre Rockwell, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Principalmente, porque as influências deste último são de todo evidente, começando logo pelo nome do hotel que dá título ao filme e que, tal como este imodestro antro cinéfilo, presta homenagem a uma determinada cena do Pulp Fiction.

Ora bem, o El Royale é um hotel situado na fronteira entre os estados da Califórnia e do Nevada e que já viveu melhores dias. Desde que perdeu a licença de jogo, que se foi o glamour, a classe e… os clientes. Por isso, quando em determinada tarde, chegam quatro diferentes hóspedes para passar a noite – um vendedor de aspiradores (Jon Hamm), um padre (Jeff Bridges), uma cantora soul baseada na vocalista da Crystals (Cynthia Erivo) e uma hippie com mau feitio (Dakota Johnson) – é como se já soubessemos que algo iria acontecer mais tarde.

Ao contrário de Quatro Quartos, em que cada história é isolada e compartimentada às paredes do seu quarto, aqui todas elas se vão cruzar, culminando num grande final que envolve a chegada de caras novas ao hotel: Chris Hemsworth, líder de uma seita manhosa, que é a enésima reinterpretação de Charles Manson (não podia ser mais cliché). Tudo o resto, é o habitual filme de Tarantino, que deu origem a mil e uma cópia genérica (quase tudo do Guy Ritchie, Kiss Kiss Bang Bang, Há Dias de Azar…).

Ou seja, estamos a falar de reciclar signos e códigos do cinema de género, embrulhar tudo em muita violência hiper-estilizada e dar-lhe uma banda-sonora vintage (a abarrotar de soul!). Depois, o realizador Drew Goddard (não confundir com o mestre da nouvelle vague) aplica-lhe aquele filtro de azul e laranja que faz metade dos posters dos filmes de hoje em dia e Sete Estranhos no El Royale está pronto a servir.

Sete Estranhos no El Royale é, portanto, um produto de entretenimento puro, para se ver com o cérebro desligado e deixar-nos ir pela simples fruição de ver e ouvir. E a coisa funciona, o que é (bem) mais do que se pode dizer da maioria dos blockbusters que estreiam semanalmente. Se depois nos vamos lembrar de muita coisa no dia seguinte? Provavelmente não, mas ao menos, durante aquelas duas horas e tal, o McRoyal Deluxe vai saber-nos super-bem!

Título: Bad Times at the El Royale
Realizador: Drew Goddard
Ano: 2018

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