| CRÍTICAS | Na Fronteira

Não há forma de dizer isto de outra maneira. O melhor é faze-lo assim, de chofre e de um só fôlego, como quem arranca um penso. Ora cá vai: Tina não deve muito à beleza.

Há qualquer coisa em Tina que inquieta. As suas feições, algures entre a normalidade anónima e as feições do Ron Perlman em A Bela e o Monstro e o Homem-Elefante criam um efeito estranho, com algo de Lynchiano na forma como aborda a normalidade por baixo das aparências. Mais tarde iremos perceber o que é, uma vez que Na Fronteira tem o seu tempo muito próprio de contar as coisas. Não é slow cinema, é apenas um ritmo de quem não tem pressas de revelar informação.

Tina (magnífica interpretação de Eva Melander por baixo das próteses) tem ainda uma estranha capacidade para cheirar os sentimentos mais perversos das pessoas (vergonha, medo…), o que a tornam numa valiosa trabalhadora na alfândega do porto. Mais tarde, acabará recrutada pela polícia para apanhar uns pérfidos pedófilos.

Mas é no porto que acabará por conhecer Vore (Eero Milonoff, também por baixo de próteses), um tipo igualmente estranho e com muitas semelhanças físicas e o mesmo medo de trovoadas (e uma aparente e estranha predisposição para levar com raios em cima). Vore entrará na vida de Tina, que o acolherá na mesma casa que divide com um saloio (Jorgen Thorsson) que cria pitbulls.

Na Fronteira adapta uma história de John Ajvide Lindqvist, o mesmo autor de Deixa-me Entrar, e, tal como esse, também aqui recorre-se ao fantástico para se reflectir e explorar ideias de género, de exclusão e discriminação e, claro, a dicotomia mais antiga de todas, as diferenças entre o bem e o mal. E a grande premissa do filme que é: será o Bem uma condição indispensável ao Humanismo?

O realizador Ali Abbassi desconstrói estes temas da mesma forma com que joga e explora os códigos do cinema de género, num gesto cinematográfico de grande amplitude, que vai do fantástico e da fábula-quase-Disney ao drama social e ao melodrama mais expressionista. E há sempre uma aura de esquisitice a pairar e a deixar tudo mais enublado.

Para quem conhece minimamente a cultura norueguesa é óbvio do que trata Na Fronteira, mas mesmo para esses o factor uau tem efeito (se bem que, por outros motivos). E, apesar das várias camadas de leitura, não há nada de confuso ou de maçudo no filme. É como o McRoyal Deluxe: são várias camadas de ingredientes diferentes, mas cada uma só serve para lhe dar um sabor diferente.

Título: Gräns
Realizador: Ali Abbassi
Ano: 2018

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *