| CRÍTICAS | Sete Pecados Mortais

Houve uma altura, ali por meados dos anos 90, que a televisão, a MTV e a cultura dos videoclipes parecia que ia controlar Hollywood (para grande tristeza da maioria da chamada crítica séria). Gente como Spike Jonze, Michael Bay ou Danny Boyle saltavam dos anúncios das grandes marcas e dos teledisco das grandes bandas directamente para os blockbusters, sem pararem sequer na casa partida e receber 10 euros. Mas esperem!, Danny Boyle nunca fez videoclipes. Só se aproveitou para usar o mesmo estilo de edição rápida, violento e com muita música pop.

No entanto, de todos esses nomes, aquele que conseguiu melhor conjugar essa estética estilizada da publicidade com um toque autoral foi David Fincher. Se bem que o seu início não foi famoso. Alien 3 ficou marcado por muitos choques com o estúdio e o filme saiu… algo coxo. Contudo, três anos depois, Fincher regressava com tudo. Sete Pecados Mortais chocava de frente, Fincher entrava com estrondo e nunca mais sairia das posições cimeiras.

Sete Pecados Mortais é um aparente neo-noir, que adapta os códigos do género a uma linguagem mais moderna. À superfície é a trama policial de dois polícias em Nova Iorque – Morgan Freeman, metódico e estudioso, a poucos dias da reforma; e Brad Pitt, jovem e impetuoso, acabado de chegar à cidade e cheio de ânsias de “chegar, ver e vencer” – a investigarem um sinistro serial killer, que mata de acordo com os pecados mortais. Mas não é preciso escavar muito para ver que Sete Pecados Mortais é muito mais do que isso.

Na boa tradição do film noir, as personagens são bem mais complexas do que possa parecer e todas elas têm esqueletos no armário. E Sete Pecados Mortais pode ser um noir a cores e não ter as sombras do preto e branco para acentuar essa negritude, mas tem a noite, que é uma constante. E quando é de dia está a chover. Ou então é de noite e chove. E sempre a cântaros. A excepção é a sequência final, aquela que remata o filme com chave de outro e o transformar em clássico moderno instantâneo. Mas já lá vamos.

A outra personagem fundamental em tudo isto é Nova Iorque. Não é uma cidade omnipresente como o é em Chinatown, para referir outro neo-noir de referência, mas tem o seu papel na tensão e no choque das suas personagens. É Gwyneth Paltrow, no papel da esposa de Brad Pitt, que encarna este papel. Ela odeia a cidade e a cidade parece que a vai odiar também. E, talvez por isso, é ela que vai ter de pagar por todos.

Sete Pecados Mortais é sempre obscuro e… gritty, como se traduz isto? É como se arranhasse a pele como uma lixa. Para isso contribui também, de forma decisiva, o assassino dos pecados mortais, com tanto de cruel quanto de metódico e culto. E ele (Kevin Spacey) pode aparecer só nos últimos 40 minutos (nem precisava de mais), mas são 40 minutos intensos, que quase roubam o filme só para si.

Nesta altura, Sete Pecados Mortais tem ainda força para dar-nos uma marretada final no alto da pinha, com um twist brutal. Mas não é um daqueles twists espertalhões do M. Night Shyamalan; é um twist que serve para fechar a história e dar-nos um murro no estômago. E com isto, termina o filme e o Royale With Cheese ainda está inteirinho na caixa. Quero ver quem o consegue comer depois de um filme assim.

Título: Seven
Realizador: David Fincher
Ano: 1995

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