| CRÍTICAS | Lamento de uma América em Ruínas

Ai, os saloios…
É impossível não ter um certo carinho pelos saloios (tradução livre para rednecks). Com um sentido de comunidade e família à prova de bala e uma ética de trabalho forte, incorporam tudo aquilo que são os valores norte-americanos, para o bem e para o mal (dos cáubois à música country…). Os rednecks são os working class heroes que construíram a América e que povoam as letras de todas as canções do Bruce Springsteen e, simultaneamente, são quem elegeu os Trumps desta vida.

Lamentos de uma América em Ruínas é um épico familiar sobre J. D. Vance (interpretado por Owen Asztalos enquanto jovem e por Gabriel Basso) e a sua família, um saloio que, apesar de ter tudo contra si, conseguiu triunfar na vida. J. D. é natural de Jackson, a terra onde Johnny e June Carter se casaram num impulso, e apesar de se ter mudado, primeiro para os subúrbios e depois para a cidade, estudado na universidade e arranjado um emprego importante, nunca conseguiu tirar Jackson de si.

Não deixa de ser curioso que Lamentos de uma América em Ruínas seja realizado por Ron Howard, que é todo ele um produto dos valores do Tio Sam. Criado dentro do próprio sistema de Hollywood, onde começou como child star, Howard é uma espécie de tarefeiro de luxo e um realizador de uma certa americana, seja em filmes mais celebratórios como Apollo 13, seja em biopics sobre figuras ilustres, como Uma Mente Brilhante ou Cinderella Man.

Por isso, Lamentos de uma América em Ruínas é um filme demasiado brilhante e polido, mesmo que a vida e J. D. Vance inclua uma mãe desequilibrada e com problemas para a adição a químicos (Amy Adams), passado de violência doméstica dos avós (Glenn Close e Bo Hopkins) e problemas financeiros em casa. Lamentos de uma América em Ruínas confunde profundidade com os histrionismos de Amy Adams. O contraponto é Glenn Close, a avó fumadora e que parece trazer algum equilíbrio aquela família, numa daquelas personagens compostas e com próteses faciais para ficar igualzinha à avó verdadeira da história, que se o filme tivesse estreado no cinema em vez de ser uma produção Netflix lhe valeria certamente uma nomeação ao Oscar.

Saltando de flashback em flshback, Lamentos de uma América em Ruínas acompanha a tentativa de J. D. em resolver a última crise da mãe, enquanto vai recuperando os episódios do passado que levaram ao ponto em que aquelas personagens estão hoje. No entanto, tudo isso acaba quase por ser representado como obstáculos numa corrida de privações, que J. D. vence com esforço e dedicação, porque quis mesmo muito. Provavelmente, a sua mãe ficou agarrada às drogas, perdeu os maridos e teve a carreira profissionais furada porque não se esforçou o bastante… O filme é ilustrativo, mas não questiona, não aprofunda e não procura entender. É assim um Cheeseburger muito fotogénico, preparado para a fotografia e cheio de corantes para estar bem apelativo.

Título: Hillbilly Elegy
Realizador: Ron Howard
Ano: 2020

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *