| CRÍTICAS | The Long Walk – O Desafio

É fácil perceber por que o realizador Frances Lawrence quis realizar The Long Wak – O Desafio. É que encontramos nesta história antiga de Stephen King (assinada ainda pelo seu pseudónimo Richard Bachmann) ecos de Os Jogos da Fome, do qual o realizador fez um dos tomos. É que ambos retratam uma América distópica em crise no pós-guerra, onde um estranho desafio que mistura honra, coragem e bravata desperta paixões entre a população.

Neste caso, esse desafio (que a tradução em português importa directamente para o subtítulo, seguindo aquela irritante tendência em explicarem os filmes todos nos títulos) é uma caminha non-stop, para a qual são escolhidos um jovem de cada estado, de forma a inspirar a população a serem mais produtivos(!). O último a desistir ganha uma pipa de massa, todos os outros são fuzilados a sangue frio e em directo para a televisão. Já todos vimos estas sátiras hiper-violentas em directo para a tv, desde talvez A Corrida da Morte do Ano 2000.

O problema é que esta longa caminhada levanta desde logo muitos problemas, que nunca são explicados. Começando logo pelo seu intuito: para que serve mesmo? É certo que o prize money é apelativo em tempos de crise, mas para todos os outros que assistem em casa qual é mesmo o interesse? Mas o pior são as regras, que nunca são bem explícitas. Sabemos que eles têm que andar sempre à mesma velocidade ou então são penalizados. Também sabemos que podem levar três penalizações antes de serem fuzilados. Mas as penalizações nunca são iguais e isso irrita. Por vezes, há participantes que param para atar o sapato e têm tempo para regressar à corrida. Outras vezes, alguém para para obrar e ainda nem baixou as calças e já está a levar um tiro na testa. A sério, decidam-se, porque assim é difícil de manter a suspensão da descrença.

Os participantes que perdem são mortos com um tiro na cabeça, mas também acontece um episódio em que um dos jovens é alvejado na barriga para ficar a sofrer enquanto se esvai em sangue. Isso não qualquer sentido além de servir apenas para motivos dramáticos. Ou seja, são toda uma série de decisões aleatórias e gratuitas, que não ajudam a a fazer-nos gostar (e interessar-nos) por The Long Walk – O Desafio.

The Long Walk – O Desafio é assim um filme de diálogos, já que este se limita a acompanhar um grupo de jovens a caminhar, à medida que vão ficando reduzidos. Por vezes, existem uns planos contemplativos de um país pobre e em ruínas, que parece As Vinhas da Ira do John Ford, mas são planos tão esporádicos que até nos esquecemos deles. O pior é mesmo o facto dos diálogos serem tão pobres e desprovidos de interesse na maioria das vezes, que damos muitas vezes por nós a torcer para que parem todos de andar e levem um tiro na cabeça.

Também não se entende muito bem como é que aquele grupo de jovens que estão a lutar pela vida e a competir por uma fortuna, se tornam amigos tão íntimos desde o primeiro segundo, ajudando-se mutuamente. Falta a The Long Walk – O Desafio uma espécie de vilão, para que não seja apenas uma história sobre a amizade e a irmandade (e consta que no livro até há alguma tensão homo-erótica, mas que foi aqui descartada pelo realizador). É certo que é Mark Hamill, na pele do cruel Major, que personifica todo o Mal do filme, mas é uma personagem tão exageradamente cartunesca que se torna impossível acreditarmos nela.

Por isso, existem poucas coisas de interesse em The Long Walk – O Desafio, um filme onde até vemos mais vezes as personagens a irem à casa de banho fazer o número 2 do que a comer, o que é uma estranha opção de Frances Lawrence. São prioridade, acho eu. A minha prioridade é deixar uma Hamburga de Choco Meal aqui e guardar os mais saborosos para filmes melhores.

Título: The Long Walk
Realizador: Frances Lawrence
Ano: 2025

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