| CRÍTICAS | Um Ladrão no Telhado

Um Ladrão no Telhado conta uma daquelas histórias tão inacreditáveis que só podiam ser verdadeiras. É uma espécie de biopic livre sobre Jeffrey Manchester (interpretado por Channing Tatum), um ex-militar norte-americano que, depois de ter fugido da prisão, se escondeu e viveu durante 6 meses no interior de um Toys’R’Us. Não tão bizarro, é certo, mas há ainda outro pormenor curioso nesta história. É que Jeffrey estava preso porque roubou 42 McDonald’s (e outros franchises de fast-food) sempre com o mesmo modus operandi: entrava pelos telhados relativamente desprotegidos destes locais e levava o conteúdo dos cofres, depois de tratar toda a gente de forma extremamente simpática. Daí ter recebido o cognome de roofman, ou seja, o ladrão do telhado.

Esta poderia ser mais uma história sobre como os veteranos são abandonados assim que terminam o seu serviço militar, sem qualquer apoio ou acompanhamento de reinserção social, mas Um Ladrão no Telhado não é esse filme. Aliás, o filme de Derek Cianfrance aborda muito pela rama esse contexto social que faz com que os cidadãos tomem decisões erradas, como o próprio Jeffrey Manchester refere logo no início do filme. Em contrapartida, Um Ladrão no Telhado flirta mais com o feelgood movie, numa espécie de comédia dramática delicodoce.

É que Jeffrey Manchester tinha mesmo um bom coração e Channing Tatum é um tipo adorável, que torna qualquer personagem fácil de gostar. Por isso, mesmo estando fugido da polícia e escondido num Toys’R’Us, Jeffrey não deixa de ajudar a empregada mãe-solteira a quem o parvalhão do chefe (Peter Dinklage) não lhe dá folha ao fim-de-semana para estar com as filhas ao alterar as escalas dos horários ou de doar os brinquedos das devoluções à igreja mais próxima. Jeffrey vai mesmo acaba por se envolver com essa tal empregada (Kirsten Dunst, também ela muito luminosa e fácil de gosta) e ocupar o lugar paternal das suas filhas que estava em falta.

À medida que vai tentando resolver os seus problemas para fugir para o Brasil, Jeffrey vai criando outros tantos até ao ponto de já estar tão enterrado até ao pescoço que já não sabe para onde se virar. Se isto fosse um filme de Guy Ritchie teria personagens bizarras, tiroteios e bodycount e muita gente a praguejar pelo meio de diálogos espirituosos. No entanto, Um Ladrão do Telhado é sobre gente comum e anónima, que tiveram apenas o pouco discernimento em tomar as decisões erradas.

Cianfrance monta aqui um filme simpático, honesto e até comovente, levando-nos a desenvolver síndrome de Estocolmo por aquele assaltante de bom coração. Aliás, nos créditos finais, o realizador coloca no ar as entrevistas da altura com as vítimas dos seus assaltos e todos, sem excepção, referem-se a ele como um tipo simpático e cuidadoso. Nestes tempos em que os cinemas e serviços de streaming estão atafulhados de filmes de super-heróis e criaturas fantásticas, acaba por ser refrescante apanhar um filme como este, daquilo que se costumava chamar de cinema do meio, sobre gente comum e ordinária. Quer dizer, não é propriamente o indivíduo comum que assalta McDonald’s pelo telhado. Esses entram mais pela porta e pedem um McChicken para levar.

Título: Roofman
Realizador: Derek Cianfrance
Ano: 2025

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