
Não sei se foi Guillermo Del Toro que nos vendeu bem o seu Frankenstein ou se fui eu que quis acreditar nele. O realizador mexicano confessou que o clássico de Mary Shelley era uma das suas histórias favoritas, que sempre o quisera adaptar ao cinema e que este seria o melhor Frankenstein de sempre; e nós fizemos muita força para crer nisso, porque é algo que calha bem com a costela fantástica do realizador, mesmo que este não faça um filme bom desde… sei lá, desde o Batalha do Pacífico? Ao menos esse era divertido.
Frankenstein está tão intrincado na memória popular colectiva, que todos conhecemos a história. Ou será que pensamos que conhecemos? Na verdade, são poucos os que viram os clássico da Universal e ainda menos os que leram o livro. Por isso, a criatura é regularmente confundida com o nome do seu criador, ele sim, Victor Frankenstein. E o livro de Mary Shelley é um filme sobre a ciência, sobre a ética e sobre os seus limites, numa variação do mito de Prometeu (de tal forma que, no original, a obra tem o subtítulo de O Prometeu Moderno).

No entanto, o Frankenstein de Guillermo del Toro é antes um filme sobre a paternidade. É óbvio que esse é um tópico inescapável na história, já que estamos a falar de um homem que dá vida a um boneco inanimado e este desenvolve a humanidade suficiente para dar uma lição ao seu criador. Mas Del Toro, que já tinha também feito a sua versão de Pinóquio (que é outra variação clássica deste tema), leva essas questões da paternidade mais longe. Frankenstein é assim a história de um cientista (Oscar Isaac) disposto a ir até aos limites da sua sanidade mental para conseguir criar vida artificialmente e assim esfregar o feito na cara do seu falecido pai (Charles Dance, uma óptima decisão de casting). Ou seja, estamos a falar do autoritarismo paternal e dos traumas que isso transporta para a idade adulta.
Guillermo del Toro avança a história para a época vitoriana e constrói um épico opulento, mas sem o toque barroco do Drácula de Bram Stoker, que é um dos seus principais modelos. Outra referência paralela que se pode fazer é com o expressionismo, tanto o alemão como o do Tim Burton inicial (o laboratório de Frankenstein podia muito bem ser o mesmo onde Vincent Price constrói Eduardo Mãos de Tesoura, outra variação icónica da criatura de Frankenstein). Só que o filme parece imobilizar-se muitas vezes numa fotografia meio sintética e com mais masturbação digital do que éramos levados a crer, tendo em conta que o realizador havia dito que tinha recorrido o máximo possível a decors reais e efeitos práticos.
Victor Frankenstein cria então a sua criatura, que não tem nada a ver com o boneco clássico de Boris Karloff, mas ninguém poderia prever que o seu modelo seria a criatura de… Festival Rocky de Terror(!). Jacob Elordi é apenas um tipo musculado e bonitão cheio de remendos que, na verdade, não são remendos, são apenas marcas. Por isso, não é de admirar que Mia Goth se enamore por ele assim que o vê. Adaptação solene e respeitosa, por vezes até demasiado, que não deslumbra nem ofende. É o melhor Frankenstein de sempre? Hmm…, prefiro não responder. É um Double Cheeseburger, certamente.

Título: Frankenstein
Realizador: Guillermo del Toro
Ano: 2025
