| CRÍTICAS | Clímax

Gaspar Noé tem discutido com Lars Von Trier, taco a taco, o galardão de enfant terrible da cinematografia actual. No entanto, o francês é um provocador bem diferente do dinamarquês, se bem que encontramos influências de Von Trier em Noé, mas não tanto o oposto.

Especialmente desde Enter the Void – Viagem Alucinante que os filmes de Gaspar Noé se têm tornado em trips alucinogénicas, com tanto de conceptual quanto de formal. Clímax é mais um passo nessa caminhada, desta vez recorrendo directamente à música para abordar e reflectir sobre os temas do costume na sua filmografia: a vida e a morte, a relação entre felicidade e prazer, o negativismo da Humanidade e a aleatoriedade da existência.

O filme inicia-se com um plano que apanha a lombada de vários livros e DVD, cujos títulos dão logo uma ideia das referencias de Clímax. Buñuel e Cioran, por exemplo, mas também o Suspiria, de Dario Argento. É que Clímax passa-se numa escola de dança abandonada, onde uma trupe de dançarinos ensaia e prepara uma festa. Há um DJ, muita sangria e alguma droga.

A primeira metade é de festa e rave. Dividido entre longos planos-sequência e outros mais formais (normalmente estáticos, na vertical, como se fôssemos o olho de Deus que tudo observa), seguimos as dinâmicas daquele grupo, enquanto dançam, dançam muito, sempre com a música a bombar por trás. Depois, alguém mete LSD na sangria e a coisa rapidamente se descontrola. Aquela irmandade rapidamente se torna hostil, a casa segura torna-se numa prisão de onde não se pode fugir e aqueles seres humanos começam a regredir até a um estado cada vez mais instintivo e selvagem.

Nesta transição, a dança torna-se cada vez mais agressiva – e aqui as coreografias quase rituais remetem para outro DVD que se vê em destaque no tal plano inicial, o de Possessão – e o sexo, a morte e a violência pelo filme adentro. Ao mesmo tempo, a câmara de Noé torna-se cada vez mais louca, rodando sobre si própria, e os planos-sequência são cada vez mais contorcidos. Quem viu Enter the Void – Viagem Alucinante ou Love sabe do que o francês é capaz…

Clímax é um filme perigoso, mas que, para quem já viu a filmografia anterior de Gaspar Noé, não traz propriamente nada de novo. Não deixa de ser, no entanto, uma experiência imersiva, com os seus próprios méritos, apesar de recalcar as suas próprias pegadas em algumas partes. E, se o vir com as condições audiovisuais certas, o McChicken sairá certamente reforçado.

Título: Climax
Realizador: Gaspar Noé
Ano: 2018

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